Rascunho

Segunda-feira, Março 05, 2012

Roupa para quem canta

Para que serve o fecho éclair nesta história? Não seria mais fácil se te mantivesses naquela vestimenta do costume?
Pergunto-me se ainda vives junto daquela harpa cheia de músicas diferentes. Todas tocavam em diversos tons e transformavam-se sempre em algo de muito bom gosto.
Apaixonei-ne rápido demais. Confiei na minha pele arrepiada, quando algo sobre ti surgia em mim. Gostava que percebesses o quão bonito seria ouvir o som do momento em que costumo pensar em ti. Operetas à parte, seria um hino em nome de um poeta esquecido.
Não te esqueças de uma coisa, essa não menos importante que a outra. O nosso encontro é do género raposódia, mas sem aquelas partes que parecem quase desaparecidas. O nosso desencontro daria uma melodia para aqueles dias tristes.
Irei encontrar-te em cantos desconhecidos, mesmo nos dias em que não te procuro. Serei um vinco de encantar no teu conjunto preferido.

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Quinta-feira, Setembro 15, 2011

Namastê (नमस्ते)

Fecho os olhos e encorajo. Devia dizer nos jornais que as casas pertencem a quem não é quase de ninguém. È como conseguir ver uma coisa a acontecer e não perceber de onde vem. Tal e qual as coisas lisas que procuram padrões pouco idealizados.
Subir os degraus sem roupa e apertar as mãos junto dos polegares. Ritmar a união entre cinco quando parecem quatro. Abraços e apertos, mesmo quando não se sabe se assim é que devia funcionar.
Contrastes, ambivalências e passos de dança no pior cenário. Como transformar tudo noutro sítio quase familiar.
Como um campo sem regras. Brincar sempre, perto de quem menos tem.

Evitar terras e guerras. Entrar no verdadeiro jogo das diferenças.


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Sábado, Setembro 10, 2011

Sem instruções

Ter poderes, mergulhar de cabeça e conseguir pedalar até levantar voo... Tentar dar uma volta ao mundo e evitar que as horas e os dias se sentem perto de uma mesa de cabeceira. Expulsar as ilusões e tirar-lhes o protagonismo de polícia e ladrão. Não viver de um movimento opaco, tão ou mais disfarçado que uma mascote.
Mudar de vida. Sem exagerar no tempo de espera. Quando parecer real, não deixar que os sonhos se encaixem nas covinhas de um sorriso conveniente. Fazer e não julgar quem não se persegue. Todos os recantos são pequenos universos multicolores com pontos e interrogações. A probabilidade, essa, é esquecê-la.

É como subir de coração nas mãos e não saber descer. Como se fosse alterar a ordem da lista de espera e me colocasse em lugar algum.

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Quarta-feira, Fevereiro 16, 2011

Contagem crescente

Mesmo antes de sairmos, dedico por antecedência ao teu cabelo, atenção aos teus dedos. Como se cada um tivesse um sonho de cada vez, mais dois pensamentos inquietos e três figas para a viagem.
Tudo o que parece andar às voltas dentro deste pequeno espaço, a que tu chamas universo amarelo, não passa de um arco-íris cheio de outras cores com outros nomes. Sou quem trata das costas da tua mão, nos dias em que dizes que a cor daqueles filmes se mistura com os piquinhos da imagem. E por isso, levo-te a passear.
Fazemos seis voltas ao quarteirão, damos mais cinco ao virar da esquina e pensamos no dia em que seremos quatro. Depois paramos por baixo do candeeiro que nos faz mais bonitos, dizemos esta luz faz as pessoas bonitas e respiramos em profunda comunhão.
No parque, arrepias-te quando estacionas a cabeça na covinha do meu ombro, sem que saibas que me delicio com a minha pele de galinha. Não merecemos outro sítio se não aquele em que paramos quando fazemos isto.
Rodopias sempre da mesma maneira os atacadores e trincas a língua sem te magoares. Fazes laços nos sapatos, enquanto eu te penteio, e como presente dizes sempre antes de chegarmos:

O vento estica a vontade, de irmos e não voltarmos.

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Quarta-feira, Abril 21, 2010

A visita

Todos os dias a rotina fazia das suas.
Da soleira da porta às traseiras haviam malmequeres e cordas a saltar, que mais não tinham além do papel de entretém.
Ao amanhecer o sol combinava as horas de chegada e ansioso fazia voar todas as poeiras do chão, sem que assim fosse necessário varrê-lo. No sofá haviam almofadas com remendos, peões pintados às riscas e um casaco de algibeira rota que nunca chegava a ir para o bengaleiro.
Durante a tarde emancipava-se o silêncio. Ou bocadinhos de ar sem nada. Como se o barulho tivesse um fio estragado, despenteado.
Assim... fechavam-se os olhos. Imaginavam-se clarinetes em danças com pavões, pratos saltitantes em sons de chá e ainda o fumo dos cigarros a bater no veludo do papel de parede. Cabeças em movimento a acompanhar compassos de música, línguas poliglotas e martinis. Roupas antigas, pessoas novas e muitas cores amarradas entre si. Pernas irrequietas, vozes roucas e o rangido do chão por causa da multidão. Como se agora o tom voltasse sem bengala e intimidação.
Espelhos, rostos e singularidades de um sonho.
Depois, sem avisar e em jeito de alvorada, passa o vento sem cartola e casacão. Num acordar sem vergonha diz que é do tempo e nem pede perdão.
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Quarta-feira, Março 03, 2010

Presente da época

Desta torre, com uma base e duas janelas, tento acompanhar o movimento da tua transparência. Percepciono bocadinhos, tiras e recortes de uma ou outra cor incidente na tua pele. Embalo o meu gosto pelo pormenor e desafio a parte em que somos comuns a tudo e a quase nada.
Acelero o meu sabor e prendo-o a uma folha de papel. Depois, deposito todo um reportório histórico por cima de um vinil que toca músicas de antigamente.
A verdade é que assistimos a uma peça bonita e agora estamos presos a um público que só se levanta em épocas altas. E tudo por causa daqueles poemas que líamos que falavam da origem dos gestos e das palavras.
Como se, num tempo futuro, existissem máquinas de escrever que tocassem as letras que te escrevo. Como se neste tempo, algo compreensível fizesse juz a estes trocadilhos e espelhos vindos daqui e dali. Sim, são espelhos e reflexos perdidos em corridas e apostas nas épocas baixas.
Agora vivemos esta realidade maluca onde colamos os dedos por cima de desenhos ultrapassados. Sublinho, agora vivemos esta realidade maluca. E antes, onde terá sido vivida já que a recordo com distinção?
São meros acasos agarrados a imagens simples, estas sincronizadas a uma dança a preceito. Sim, vamos! Estica a tua mão e convida-me para dançar.
Nesse embalo, leva-me para onde quiseres e movimenta-te de forma a eu conseguir anteceder as tuas mais pequeninas decisões. As grandes vou deixar a teu cargo.


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Segunda-feira, Outubro 05, 2009

Do nariz ao dedo mindinho

Mordeste-me o nariz.

Veio nas notícias que estamos a perder os costumes. Se tivéssemos aparecido no jornal, tenho a certeza que passaríamos a ser a base de uma imitação tradicionalmente repetida.

Em tamanho pequeno tornamo-nos o centro da realidade e deste tamanho criamos a verdadeira idade.

Agarrei-te no dedo mindinho.

Apareceu num anúncio algo parecido, mal reproduzido. Foi como imaginar o perfil da tua cara com um grande cabelo pela frente.

São pedacinhos de ti.

Andam em baloiços e cantam bocadinhos do teu nome como se cada letra viesse de uma nota saltitona de um piano.


Tu disseste: vamos?


Foi quando o pico do meu optimismo escorregou. Do teu nariz ao meu dedo mindinho.


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